RESPEITE AS MÃES: dois convites

Sobre Cuidado

A palavra “respeito” vem do inglês re-spect (olhe de novo).

Pois agora que o dia das mães passou, meu convite é para que adotemos um novo e poderoso olhar para o papel das mães na sociedade, todos os dias.

Um olhar mais amplo e generoso, que rompa com a ideia de que cuidar dos filhos é uma responsabilidade meramente individual/familiar. A decisão de ter um filho pode até ser pessoal (ou, pelo menos, deveria), mas impacta toda a sociedade — e é impactada por ela.

Escrevendo assim, parece óbvio, mas só me dei conta disso poucos meses antes de ser mãe — e nem foi pela minha experiência na gestação. Mas pelo projeto do documentário Com Licença, financiado pela Benfeitoria, que trazia no trailer o filósofo Mario Sérgio Cortella defendendo que deveríamos ter um orçamento coletivo para cuidar de quem cuida das nossas crianças.

Do ponto de vista econômico, nada mais justo: segundo estimativas da ONU, mulheres contribuem anualmente para a sociedade, em cuidados não remunerados, o que custaria aos cofres públicos/privados 10 trilhões de dólares (o suficiente para acabar com a miséria do mundo 100 vezes, segundo a OXFAM).

Do ponto de vista sócio-cultural (e até ambiental), nada mais óbvio: filhos que crescem em ambientes mais tranquilos, cercados de cuidado e afeto, têm mais chance de se tornarem cidadãos que valorizam e praticam mais naturalmente o cuidar de si, do outro e do planeta.

Como bem resume a música predileta do meu caçula: “Quem cuida do seu quintal, cuida do mundo inteiro”. Neste sentido, toda mãe é uma empreendedora social. Respeite. Cuide. Não só no dia das mães. To-dos-os-dias. E, certamente, não só com flores. Em todos os níveis:

> Pessoal: com presença, acolhimento e não julgamento. Basicamente: chegue junto se for o pai ou alguém da rede de apoio — e, se não for, pela amor da Deusa, não atrapalhe.

> Profissional: se for da área da saúde, por amor, não perpetue informações comercialmente convenientes que nos desempoderem sobre parto e amamentação. Das demais áreas, seja mais empático e inteligente: dar um tempo na carreira para se dedicar à maternidade não é um “borrão no currículo”. Ao contrário. É um serviço social e ainda torna a mulher uma profissional muito mais sagaz e completa.

Ainda sobre isso: licença maternidade não é folga. Ao contrário: sair para trabalhar é MUITO mais fácil e confortável do que ficar em casa. Não importa quão difícil e imprevisível seu mercado/função é. Não chega perto das surpresas e desafios que criar uma criança oferece (imagina de um adolescente, rs).

> Legal: esfera essencial para estimular (ou coibir) coletivamente certos comportamentos pessoais e empresariais. Enquanto a licença maternidade de uma mulher for capaz de quebrar uma startup, nunca teremos competitividade e representatividade no mercado. E este é apenas um fator de muitos que podem ser positivamente influenciados por políticas públicas construídas para ajudar as mães na tarefa coletiva do cuidar de seus filhos  e filhas – vírgula -, nossos cidadãos e cidadãs.

> Cultural: esfera resultante e, ao mesmo tempo, influenciadora das leis (e suas interpretações), bem como das nossas ações em casa, na rua e no trabalho. No fundo, esse texto é sobre a importância e a urgência de uma mudança na forma como olhamos e nos relacionamos com a maternidade, com as mães – e, consequentemente, com os pais. Uma mudança, essencialmente, cultural.

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Em uma cultura em que as pessoas entendem e valorizam o papel social de uma mãe, mães não sofrem assédio moral no trabalho ao engravidarem; não têm seu parto roubado por um sistema de saúde cruel; não se sentem constrangidas ao amamentar em público; não têm mais responsabilidade (nem cobrança social) que os pais na criação dos filhos; não perdem a guarda de um filho/a por uma interpretação machista de um juíz sobre suas “obrigações morais”; não precisam ir para rua com seus recém nascidos em pleno puerpério para mendigar por remédios, leite, fraldas…

E, a despeito de me entristecer profundamente ao lembrar de histórias que conheço para ca-da um dos exemplos acima (e MUITOS outros), por ser mãe, não me permito ficar distópica – principalmente por ter consciência de que apenas conhecer essas histórias (e não fazer parte delas) é muito mais que sorte: é privilégio. E precisamos lutar para que vire direito. Aí entra a importância da utopia: para nos dar força para luta, mesmo quando estamos em luto.

Então ainda tenho esperança (e estar na Benfeitoria também me ajuda muito neste sentido) de que ser mãe pare de ser sinônimo de sacrifício e renúncia por da parte da mulher.

Não que não haja, em todos os níveis (físico, mental, emocional e até espiritual). Mas ser mãe não deveria ser sinônimo de abrir mão de sonhar, de se expressar, de ser mulher… nem mesmo de ter outras prioridades na vida (pasmem!). Tampouco deveria ser uma obrigação social da mulher (ou vai dizer que você nunca cobrou aquela amiga de 35 anos dos filhos que “ainda” não teve?).

Mas, infelizmente, é o que ainda ocorre com a maioria das mães, pelo menos no Brasil. Muitas, inclusive, têm perpetuado essa cultura de sacrifício e renúncia, simplesmente por não terem outra opção, quando o exercício de cuidar das crias recai [praticamente] exclusivamente sobre elas. Não dá.

Como diz um famoso provérbio africano: é preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança.

Mães abandonadas pelo estado, pelos companheiros/as e sem rede apoio, ainda que com amor infinito aos filhos, os criam sob um nível de stress que gera consequências para toda sociedade. É CRUEL E BURRO NÃO ENTENDER ISSO. E ineficiente não fazer nada sobre.

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Por isso, fecho esse post com outro convite. Desta vez, para ação. Fizemos uma seleção de projetos sobre maternidade que já passaram pela Benfeitoria e 3 deles estão abertos para colaborações recorrentes — como deveria ser o cuidado com as mães.

Venha se inspirar e fazer parte! É um mais lindo que o outro: benfeitoria.com/maes

E se você tem um projeto sobre o tema, vem tomar um café com a gente! Nas próximas sextas-feiras de maio (dias 18 e 25), vamos receber mães empreendedoras para um café da manhã (de 9h às 11h) com consultoria de crowdfunding grátis, aqui no nosso escritório (RJ/Botafogo). Só chegar! Para saber mais, envie um email para contato@benfeitoria.com

Cuidar de quem cuida (hoje, principalmente as mães) é sim responsabilidade de todos. Mas aqui vale lembrar que isso não é (só) uma cobrança, mas uma possibilidade para lá de relevante e gratificante.

Responsabilidade = Habilidade em responder. Não só devemos, como podemos. Vamos juntes?

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