Registros publicados em agosto, 2015
Será que entendemos errado a Economia Colaborativa?
Este texto é uma tradução de um artigo escrito para o blog Agenda, do Fórum Econômico Mundial. O original (em inglês) está aqui. *** “A economia compartilhada sente falta de uma definição compartilhada”, diz a pesquisadora Rachel Botsman, e eu concordo. Termos como “economia compartilhada”, “nova economia” e “consumo colaborativo” são usados como sinônimos. Mas será que eles têm o mesmo significado? E mais importante: será que que significam a mesma coisa para todo mundo? Muito mais que compartilhamento Para mim, as melhores ferramentas para entender esses conceitos complexos (e confusos) são oferecidas pela própria Botsman, uma especialista no assunto. Ela diz que aquilo que a gente chama de “economia compartilhada” – bicicletas, casas, ferramentas, carros etc – é apenas uma parte do consumo colaborativo, que por sua vez é só um pedaço de um cenário maior. A transformação real é muito mais profunda do que apenas mudar a forma como consumimos. Também inclui a maneira de ensinar e aprender, projetar e produzir, interagir com outras pessoas e até a forma como nos relacionamos com o dinheiro. Não é apenas uma forma mais eficiente de fazer negócios e tirar vantagem de uma oportunidade de mercado, mas um novo paradigma, uma nova forma de enxergar as relações econômicas do nosso tempo. Este quebra-cabeça maior pode ser chamado de economia colaborativa, e é nisso que eu quero focar. Realidades diferentes Aqui no Brasil, a gente vive uma realidade que foi recebeu vários nomes nos últimos anos. Subdesenvolvido, Em Desenvolvimento, Terceiro Mundo… Escolha o seu preferido. Eu prefiro o termo “periférico” porque não estamos em um estágio intermediário do nosso desenvolvimento que vai naturalmente nos levar um patamar “desenvolvido” ao longo do tempo. Nós simplesmente não estamos no centro do debate. Não estamos definindo a pauta. Na verdade, estamos sendo definidos pela pauta mundial. Aqui, como em muitas outras realidades periféricas, a economia colaborativa emergiu em uma forma ligeiramente diferente, mas profundamente transformativa. Eu acredito que isso aconteceu exatamente porque vivenciamos o mundo através de uma perspectiva diferente. Se compararmos com os EUA e a Europa, berços desses – e muitos outros – modelos de negócios, fica óbvio que nós percebemos a crise mundial de uma forma bem distinta. crise e escala Deixe eu fazer uma pequena pausa aqui e dizer: sim, o mundo está em crise. Nós já vimos várias melhoras em diversas áreas, mas ainda estamos muito, muito longe de ser uma sociedade justa, harmoniosa e funcional. Dois bilhões de pessoas vivem com menos de dois dólares por dia, enquanto os 1% mais ricos concentram quase a mesma quantidade de riqueza dos outros 99% da população. Mais de 70% dos trabalhadores estão infelizes em seus trabalhos. Nós consumimos 50% mais recursos do que o ecossistema do nosso planeta é capaz de regenerar. No meu ponto de vista, essa crise é muito mais do que econômica. É sobre nossos valores, nosso estilo de vida. E é agigantada por um problema de escala. Imagine pegar 100 pessoas aleatórias e colocá-las em uma nave espacial indo a lugar nenhum, apenas flutuando no sistema solar com recursos limitados. Não parece muito lógico imaginar que essas pessoas competirão ferozmente pelos recursos ou tentarão estabelecer um sistema de crescimento infinito dentro da nave, certo? Bem… essa é exatamente a nossa situação. Nós vivemos em um pedaço de pedra – com lava derretida dentro! – vagando sem rumo pelo espaço, com um quantidade finita de recursos à nossa disposição. O problema está na escala. A nossa nave é tão grande que é impossível para cada indivíduo perceber (a) a distância entre as suas ações e as suas consequências e (b) a escala entre as suas ações e a soma de todas as ações individuais. Nós estamos nessa crise juntos porque compartilhamos a mesma casa. Já é hora de tratar essa nave e os passageiros um pouco melhor. mais próximos e mais conectados De várias formas, a economia colaborativa traz uma mentalidade de movimento – como brilhantemente explicado pelo australiano Jeremy Heimans, e comentado em outro artigo aqui no blog, no seu trabalho sobre O Novo Poder. Ele afirma que precisamos ser capazes de mobilizar multidões não apenas para consumir, mas para ser parte ativa em assuntos realmente importantes. Para isso, precisamos reduzir a escala das transações, projetos, decisões e financiamento de volta para o nível individual. Interações mais pessoais, comportamentos de compartilhamento e outras novas tendências trazem o objetivo final de tornar as pessoas mais próximas, mais conectadas e engajadas. Trazer a escala de volta para nossas mãos. É por isso que a economia colaborativa não é apenas sobre o compartilhamento de bens, mas sobre a distribuição de valores, ideias, poder e soluções para um futuro mais sustentável. A diferença é que nas nações periféricas nós vivemos esses problemas no nosso dia-a-dia. Não há como mascarar, varrer para debaixo do tapete. Em parte porque temos mecanismos piores para isso, em parte porque já estamos debaixo do tapete vendo o que o mundo varre para cá. Aqui, as ideias colaborativas são inseparáveis das ideias de igualdade social, responsabilidade ambiental e impacto positivo. As start-ups da economia colaborativa são criadas por empreendedores sociais. Elas nascem com um propósito na raiz, não apenas uma boa oportunidade de negócios. Valor Compartilhado e Negócio Social são parte comum do vocabulário desses inovadores. Meios de sobrevivência A ideia de plataformas online ajudando pessoas a se conectarem e compartilharem é um grande avanço. Eu realmente acredito que está melhorando o mundo em que vivemos. É uma revolução para muitos de nós, mas principalmente para aqueles que sempre tiveram acesso a muitos tipos de recursos. Nas favelas, a cultura do compartilhamento está enraizada na vida cotidiana. Quando você não tem muito, o seu maior recurso pode ser a rede de pessoas ao seu redor. Para essas comunidades, colaboração não é uma escolha, mas um meio de sobrevivência. Muitos dos conceitos que estamos discutindo e prototipando estão funcionando há décadas nestes lugares, simplesmente por necessidade. No Brasil, existe uma grande onda de pessoas procurando por propósito e fazendo uma transição para trabalhar na economia colaborativa….
Lowsumerism: a onda do baixo consumo
Na semana passada, a agência de tendências Box 1824 lançou um vídeo chamado “The Rise of Lowsumerism” – algo como “A escalada do baixo consumo”. Você pode conferir o resultado abaixo. O vídeo traz algumas questões interessantes sobre a evolução da nossa forma de consumo, o papel da propaganda e as diferenças geracionais. Não há dúvidas de que chegou a hora de discutirmos os nossos padrões de vida e a forma como consumimos. O crescimento do movimento por alimentos orgânicos, o fortalecimento do consumo local, o surgimento de plataformas de trocas, a expansão da cultura maker e o surgimento de moedas sociais são sinais disso. O vídeo vem discutir apenas uma peça nesse quebra-cabeça: a responsabilidade crítica do consumidor como indivíduo que faz parte de uma comunidade maior. A ECONOMIA COLABORATIVA Em um certo momento do vídeo, o tema é a “sharing economy” – economia colaborativa, ou mais especificamente o que chamamos de economia compartilhada, mas não vale a pena entrar nos detalhes da terminologia aqui. Há também uma crítica ao modelo: “Embora a economia compartilhada pareça um passo a frente, ela não reduz de fato o nosso desejo de consumir” Vale notar dois pontos importantes. 1- Quando o vídeo fala em “sharing economy“, ele se refere especificamente a modelos de compartilhamento de bens materiais como carros, bicicletas, ferramentas e casas. A economia colaborativa é muito mais do que isso, mas para o objetivo do vídeo, ele foca apenas do consumo colaborativo, não no movimento como um todo. 2- Sim, o vídeo tem razão quando diz que esses modelos “não reduzem de fato nosso desejo de consumir”. Por outro lado, eles reduzem sim o consumo total e, em consequência, a produção de bens e o uso de recursos. Existem diversas críticas possíveis a estes modelos, mas o consumo colaborativo muda sim a forma como consumimos. O objetivo do vídeo porém – e isso fica claro neste segmento – é atacar o desejo do consumo, não o ato de consumir em si. O CRESCIMENTO ECONÔMICO Existe uma questão de fundo, não abordada diretamente no vídeo, que está no centro de todo o problema: o único modelo econômico vigente é o de crescimento infinito. Mas qualquer modelo de crescimento infinito em um ambiente finito – como o nosso planeta – é, por definição, insustentável a longo prazo. A única métrica que usamos atualmente para medir o sucesso de uma nação é o crescimento percentual do seu Produto Interno Bruto (PIB). Mas o PIB “mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena“. Não mede prosperidade, felicidade geral, qualidade de vida. Ele mede apenas a quantidade de relações econômicas acontecendo em um país. Quanto mais consumirmos, maior será o PIB, maior será o crescimento. Por isso, a discussão acerca do consumo é tão importante no nosso momento atual. Mas ela não passa apenas pelo comportamento individual dos consumidores. Essa mudança de cultura é fundamental. Mas será que, como sociedade, estamos preparados para as consequências? As economias passariam por um desaquecimento, empregos seriam perdidos, haveria recessão em vários aspectos. Todo o nosso ambiente econômico foi criado para sustentar o consumo em massa e agora depende dele para sobreviver. Temos que consumir menos. Muito menos. Todos têm absoluta responsabilidade. Mas, para isso, temos que também mudar a forma como enxergamos nosso sucesso econômico e estruturamos as nossas relações de trabalho. E esta é uma questão muito mais profunda do que o simples ato de consumir. A LINGUAGEM Boa parte da crítica do vídeo se faz em cima da propaganda e a forma como essa ferramenta influenciou nossa cultura ao longo das últimas décadas. O curioso é perceber que essa crítica se utiliza da mesma linguagem publicitária para comunicar suas ideias. No livro O Ponto de Virada, Malcom Gladwell explica tendências de comportamento como epidemias que se espalham pela população seguindo o mesmo padrão de um vírus. Um dos elementos mais importantes é o que ele chama de Fator de Fixação, que é o poder que uma ideia, mensagem ou atitude tem de causar impacto em quem é “infectado”. Quanto mais alto o Fator de Fixação, mais forte é o “vírus”, ou seja, mais claramente a mensagem é percebida e “gruda” na mente das pessoas. O poder da linguagem publicitária é inegável. Tanto é assim, que a propaganda não só criou vários dos caminhos que nos trouxeram até essa crise de consumo, como nesse vídeo foi usada como mecanismo para sairmos dela. É uma discussão interessante. Einstein dizia que não se pode resolver um problema com o mesmo modelo mental que o criou. Mas será que nesse caso a melhor forma de atacar o poder da publicidade tradicional de gerar um consumismo desenfreado é usando a mesmíssima linguagem, porém com a mensagem oposta? Fica a reflexão.
Faça o trabalho que você acredita, não aquele que você ama
Já virou clichê: um texto inspirador narrando como nascemos para fazer aquilo que a gente ama. Devemos largar o emprego, respirar fundo, tomar coragem e começar uma aventura trabalhando com o que nos traz felicidade profunda. E isso tudo pode ser, sim, verdade. Simplesmente não vale a pena usar a maior parte do nosso tempo em uma coisa que não nos dá prazer. O que me intriga, porém, não são as pessoas que não gostam do seu trabalho, sim as pessoas que não acreditam nele. Seja por não acreditarem no produto (ou serviço) que oferecem ao mundo, seja por não acreditar na forma como aquilo é oferecido. Temos um exército de pessoas que aceitam a ideia de que o mundo do trabalho é isso aí mesmo, que as relações entre pessoas e empresas funciona assim e que a gente deve trabalhar para quem nos oferece as melhores condições, sem traçar qualquer conexão entre o nosso trabalho e as consequências que a empresa traz para o mundo, boas ou ruins. Mas existe muita ideologia por trás do discurso de que o trabalho não é ideologia. Quando a gente aprende que trabalho é trabalho, lazer é lazer, política é política e essas são todas dimensões separadas da vida, estamos nos adequando a uma narrativa meticulosamente construída. O trabalho que você faz molda o mundo que você vive. Por isso, escolha um trabalho que você acredita, não necessariamente um que você ama. Se der para juntar as duas coisas, perfeito! Mário Sérgio Cortella, grande filósofo brasileiro, tem uma linda palestra na qual ele narra a sua experiência como secretário de educação em São Paulo. “No andar onde eu trabalhava tinha uma cozinha onde ficava a Dona Maria, que fazia café para servir no gabinete do secretário.”, ele conta. “Sabe o que Dona Maria achava que fazia ali?” A resposta não poderia ser mais simples: “Café.” Como secretário, Cortella fazia muitas visitas oficiais em escolas que estavam sendo inauguradas. Eventos que tinham banda, comida, comemoração, faixa sendo cortada, crianças cantando em coro… Ele então deicidiu mudar a lógica: passou a levar os servidores do dia-a-dia para essas visitas, não os seus assessores políticos. Dona Maria foi a primeira. “De repente ela entendeu que o que ela fazia na secretaria de educação não era café. Era educação.” Esse pensamento simples transformou o trabalho na secretaria. Quando separamos aquilo que nós fazemos como indivíduos daquilo que estamos ajudando a construir, o resultado é muito perigoso. Desumanizamos o trabalho. Enquanto a gente se adequar e fechar o nariz para as coisas erradas que as empresas fazem – seja na sua cadeia de produção, seja na relação com o meio ambiente, seja na forma como trata os seus funcionários – estaremos compactuando com isso. Talvez até pior: estaremos ajudando isso tudo a acontecer. Eu não estou sugerindo aqui que é fácil encarar o patrão, estufar o peito e se impor. Não estou dizendo que as relações de trabalho dão sempre esse tipo de abertura. Por outro lado, acredito sim que a gente subestima o nosso potencial transformador quando estamos dentro de uma organização. Pessoas simples fazendo coisas pequenas em lugares pouco importantes, geram mudanças extraordinárias. Também não espero que essa postura seja escrita em pedra. Cada momento de vida pede uma resposta. O que é inegociável para você hoje? Pode ser que amanhã isso mude. Um trabalho que você acredita não necessariamente precisa ter o objetivo de salvar o mundo. Se você quer vender chocolate, ser DJ ou dirigir um táxi, ótimo! Como esse trabalho impacta a sua vida e a de outros – ao seu lado ou bem longe de você – é o ponto que merece pelo menos uma reflexão crítica. Isso tudo não vem sem contradições. E muitas vezes a linha é muito tênue. Onde está o limite? Em geral é uma pergunta bastante pessoal. No que você acredita? Particularmente, eu não acredito na indústria das armas. Para mim, é um produto que não faz sentido como produção e comercialização em massa e eu nunca usaria meu esforço, minha energia e criatividade para vendê-lo. Não quero trabalhar com essas empresas. Mas essa é a minha cabeça. Tenho um grande amigo que faz parte de clube de tiro, adora armas e pratica tiro esportivo sempre que pode. Talvez ele adorasse fazer um projeto com esse pessoal. E eu não vou julgá-lo por isso. No final das contas, as escolhas estão dentro de cada um. O mais importante é ter uma visão crítica sobre aquilo que estamos construindo. Seu trabalho é também o seu legado. Se é para aceitar ou se adequar a alguma coisa, que essa seja pelo menos uma decisão consciente. O piloto automático é a armadilha. O mundo certamente seria um lugar melhor se o que a gente faz fosse mais alinhado com o que a gente acredita, mesmo que eu e você acreditemos em coisas diferentes. “A vida é muito curta para ser pequena.”, dizia Benjamin Disraeli. — PS: algumas discussões interessantes surgiram depois da publicação do post e, com elas, aquela ansiedade de não ter abordado certos aspectos, não ter conseguido aprofundar em outros… Esse texto não tem o intuito de cobrir todas as questões, mas de servir de provocação e gerar uma discussão sobre o tema. E eu vou ter que conviver com o fato de não ter falado sobre isso ou aquilo.
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